Currículo cego: saiba o que é e quais são as vantagens

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Autor: Isabella Moretti/Via Carreira

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Currículo cego: saiba o que é e quais são as vantagens
Currículo cego: saiba o que é e quais são as vantagens (Foto: Divulgação)

Currículo cego: saiba o que é e quais são as vantagens. Esqueça o velho formato de CV que reunia informações pessoais do candidato. O currículo cego é uma nova tendência de recrutamento, que está se popularizando principalmente entre as grandes empresas. Entenda melhor como funciona esse método de seleção e conheça suas vantagens.

No Brasil, ainda prevalece o currículo tradicional. Os candidatos precisam inserir no documento dados como nome, endereço, gênero, idade e nacionalidade. Essas informações pessoais, quando analisadas previamente pelos recrutadores, podem gerar uma série de preconceitos e até mesmo eliminar profissionais com grande potencial. Para combater qualquer tipo de discriminação no recrutamento, algumas empresas já apostam na avaliação às cegas.

Entre as companhias que apostam no novo método de seleção, vale destacar a Nestlé. Em seu programa de trainee 2019, a empresa colocará em prática o processo às cegas para selecionar os jovens talentos. Assim, os gestores só terão contato com os currículos dos candidatos na última etapa da seleção.

O que é o currículo cego?

O currículo cego é um tipo de currículo que omite informações pessoais. Endereço, nacionalidade, idade e gênero não aparecem. Já o nome e o sobrenome são substituídos pelas iniciais do candidato. Até mesmo o endereço de e-mail pode sofrer algumas adaptações para o recrutador não saber de quem se trata.

O recrutador tem acesso apenas às qualificações e experiências profissionais do candidato. O CV completo só é revelado na última etapa da seleção, que consiste na entrevista final e presencial. Dessa forma, os preconceitos são evitados, até mesmo aqueles que surgem de modo inconsciente na mente dos recrutadores.

O método de currículo cego tem ganhado força nos últimos anos, principalmente em países da Europa. Na Espanha, por exemplo, esse tipo de seleção mobiliza não só grandes multinacionais, mas também universidades e associações profissionais. A avaliação “às cegas” já vem sendo considerada uma política pública para acabar com qualquer tipo de discriminação durante o processo seletivo.

Modelo de currículo cego é sucesso na Europa

Os recrutadores europeus costumam descartar um candidato logo após analisar o nome completo. Na Alemanha, por exemplo, os profissionais com sobrenomes germânicos possuem 14% mais chances de contratação do que aqueles com raízes turcas. Algumas nações, por sua vez, querem combater esse tipo de discriminação praticado pelas empresas do velho continente.

Em 2014, a França aprovou uma lei que obriga o modelo de CV cego em qualquer empresa com mais de 50 funcionários.  Países como Reino Unido, Suécia e Holanda também são adeptos a políticas do tipo, mas apenas estimulam as empresas privadas a adotar a avaliação às cegas (sem obrigatoriedade).

Quanto às empresas, a tendência de recrutamento já contagiou nomes como BBC, HSBC, Deloitte e outras gigantes do mercado.

Principais vantagens

O currículo cego promete combater uma série de preconceitos que ainda existem no ambiente de trabalho. Evita, por exemplo, a discriminação de mulheres em idade fértil ou de pessoas mais velhas. Também é uma poderosa ferramenta para combater xenofobia, sobretudo nos países europeus. Vale lembrar que, em alguns países da Europa, as empresas ainda são relutantes com relação a contratação de imigrantes, oriundos da África e do Oriente Médio.

O candidato, que participa de uma avaliação às cegas, conta com a proteção do anonimato. Portanto, o seu currículo não é descartado logo na primeira triagem, por conta de pensamentos machistas ou racistas dos recrutadores.

Currículo às cegas chegou ao Brasil?

Algumas empresas estão tentando colocar em prática a avaliação às cegas, mas é importante ter em mente que a realidade brasileira é bem diferente da europeia.

A desigualdade no mercado de trabalho brasileiro é comprovada através de números. Apenas 13,6% dos cargos executivos nas empresas são ocupados por mulheres. Entre as mulheres negras, a taxa é ainda menor: 4,7%. A remuneração também é desigual e regida por pensamentos machistas. No Brasil, os homens ganham 19% a mais do que as mulheres, apesar de possuírem o mesmo nível de escolaridade e ocuparem os mesmos cargos.

O acesso da população negra à educação ainda é bem limitado se comparado ao dos brancos. Mesmo com as políticas de cota, a taxa de matrícula entre os negros e pardos é de apenas 58% e 57%, contra 71% da população branca.

No Brasil, a descriminação se manifesta mais na entrevista presencial do que durante a triagem dos currículos. O mercado de trabalho ainda é muito desigual para mulheres e negros, que geralmente ocupam cargos na base das grandes empresas e quase nunca no topo. Portanto, o método de CV cego pode não funcionar totalmente entre as empresas brasileiras.

Outro ponto muito importante: o currículo cego não aumenta o acesso às oportunidades no Brasil. Por aqui, a população branca tem maiores chances de estudar desde o ensino médio, então consequentemente sai na frente numa análise de qualificações educacionais e profissionais.

Por: Isabella Moretti/Via Carreira