ESPECIAL LULA CONDENADO: “A prisão representa mais um degrau da escalada do Brasil pós-golpe”

Autor: Aratu Online

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Do Aratu Online, parceiro do Simões Filho Online

Diante da condenação do ex-presidente Lula na Justiça, o Aratu Online, parceiro do Simões Filho Online, convidou diversos atores sociais a se manifestar sobre o assunto. A pergunta é simples. A condenação de Lula foi justa?

Quem abre a inaugura a publicação é o jornalista e doutorando Thiago Ferreira, que entende o julgamento como “apenas mais uma cena desse script farsesco escrito por quem de fato manda no país”.

O texto é de inteiro teor do articulista convidado e este portal não se responsabiliza pelas opiniões aqui expressadas.

Boa leitura!

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A condenação do ex-presidente Lula nesta segunda-feira (12/7) pelo juiz Sérgio Moro a nove anos e meio de prisão representa mais um degrau na escalada de arbitrariedades em curso no Brasil pós-golpe. Não sou daqueles que acreditam piamente na inocência de Lula, que sim, se aproximou de suspeitos politiqueiros, empreiteiros, banqueiros e outros eiros, mas a condenação de Moro foi mais telegrafada que o passo-a-passo revelado no spoiler dado pelo senador Romero Jucá, líder do governo ilegítimo de Temer no Senado.

Não estou também entre aqueles que acham que a Lava-Jato é um projeto ianque a fim de destruir a Petrobras e todo o mercado nacional (alô, Aldo Rebelo!). É uma operação importante de combate à corrupção, complexa, com diversas frentes e desdobramentos que respingam em vários partidos. Entretanto, tão evidente quanto isso é a ação parcial de alguns dos seus atores.

Moro, por exemplo, em diversas audiências, restringiu o direito à defesa do ex-presidente, tanto cerceando a palavra dos seus advogados quanto se comportando como parte da acusação. Não teve a postura que se espera de um juiz. Não se distanciou dos fatos para preservar a sentença que irá proferir. Participou de encontros públicos com pessoas investigadas, se deixando fotografar em clima de relativa intimidade. Nada ilegal, mas revelador dos pesos e medidas do herói das cruzadas contra a corrupção.

Não podemos esquecer ainda da divulgação do grampo ilegal entre a então presidenta Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula. Mesmo que tivesse cessado o tempo de autorização judicial, mesmo que a gravação da presidenta demandasse autorização do Supremo Tribunal Federal; ambos foram gravados, trechos foram divulgados, excertos foram narrados em telejornais e Lula foi impedido de tomar posse como ministro da Casa Civil. Ação política de Moro a fim de fazer valer a mesma vontade que ele diz, na sentença de hoje, não manifestar.

O juiz de primeira instância do Paraná foi posicionado nessa narrativa como a principal figura a rivalizar contra Lula. Papel que não é ou não deveria ser esperado a ser desempenhado por qualquer juiz. Era o super Moro – de quem a esposa fez página de apoio, gravou vídeo e deu entrevista se dizendo emocionada – contra Lula, “o maior corrupto da história”, “o quadrilheiro que saqueou a Petrobras”, “líder da maior organização criminosa desse país, o PT”. Quem pode dizer que a decisão de hoje surpreende? Não havia qualquer movimento vindo do judiciário, desrespeitando o direito à inocência, que permitisse supor outro desfecho. Era preciso saciar a sede de sangue da opinião pública com essa decisão, mesmo que existam dúvidas razoáveis sobre a propriedade do Triplex, e mesmo que a corrupção seja um problema sistêmico.

“O julgamento é sobre o que representa para o deus-mercado”, diz jornalista

Há de se observar ainda o timing para que essa decisão tenha sido tomada: um dia após a votação da reforma trabalhista no Senado. Com a decisão de Moro e a aprovação da reforma, o deus-mercado viu oscilar o dólar para baixo. A condenação de Lula afasta a possível repercussão negativa com a destruição da CLT e diminui também a visibilidade da discussão sobre a denúncia de Temer na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Nada importa para patos e afins. #lulapresoamanha (mesmo que o juiz tenha preferido deixá-lo solto enquanto não recorrer à segunda instância, na TRF-4, em Porto Alegre. Se confirmada nesse tribunal, Lula não poderá concorrer a presidente em 2018 por causa da lei da Ficha Limpa).

A reação do deus-mercado mostra ainda que a conciliação do lulismo não foi capaz de fazer de Lula o candidato dessa entidade nas próximas eleições. O mercado deseja reformas sem mediações e resistências. Lula acenou que poderia manter algumas das alterações realizadas, mas é insuficiente, porque pressupõe conciliação e o mercado quer garantir contextos que lhe sejam absurdamente favoráveis. O ex-presidente só se sustenta colocando na mesma mesa trabalhadores e patrões (pobres e banqueiros). É a sua forma de fazer política desde os tempos no Sindicato dos Metalúrgicos.

Veja vídeo que explica o passo a passo da condenação de Lula:

Só que, em épocas de vacas magras, barata voa, mesmo que isso represente a volta do Brasil ao mapa da fome. Assistimos meio atordoados ao congelamento de investimentos públicos, às aprovações das reformas trabalhista e previdenciária, à manutenção de um presidente ilegítimo que é flagrado se encontrando às escondidas com um empresário acusado de corrupção (“tem que manter isso aí, viu?”). É o Brasil de volta para o passado. A condenação de Lula é apenas mais uma cena desse script farsesco escrito por quem de fato manda no país. O julgamento não é sobre a inocência ou a culpa do ex-presidente, mas sim, sobre o que ele representa para a opinião pública, para o deus-mercado e, principalmente, para os mais pobres.

Thiago Ferreira, 30, é jornalista e doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas na UFBA